Plano Pastoral

NOVA “SAÍDA”  MISSIONÁRIA DA IGREJA

 

     É a palavra de ordem do Papa Francisco, na recente Exortação Apostólica “A Alegria do Evangelho” : «Hoje todos somos chamados a esta nova “saída” missionária. Cada cristão e cada comunidade há-de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias, que precisam da luz do Evangelho. (Papa Francisco, Exortação Apostólica, A Alegria do Evangelho=AE, 24 de Novembro de 2013, nº 20).

Como transmitir o que não muda, num mundo em mudança? Só mudando. Não o Evangelho

que é o mesmo de sempre, mas a atuação pastoral. É o desafio de uma «nova “saída” missionária» da Igreja, lançado pelo Papa Francisco, na Exortação Apostólica A Alegria do Evangelho.

 “Conversão pastoral”

1.«A todos exorto a aplicarem, com generosidade e coragem, as orientações deste documento» (AE 33):

«Espero que todas as comunidades se esforcem por * usar os meios necessários para avançar no caminho de uma conversão pastoral e missionária que não pode deixar as coisas como estão» (AE 25).

«A pastoral em chave missionária exige o abandono deste cómodo critério pastoral: “Fez-se sempre assim”. Convido todos a serem ousados e criativos, nesta tarefa de repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respetivas comunidades…

«Cada Igreja particular, porção da Igreja Católica sob a  guia do seu Bispo, está, também ela, chamada à conversão missionária… Exorto também cada uma das Igrejas particulares a entrar decididamente num processo de         discernimento,  purificação e reforma»   

     Urge, pois, promover, a nível de Diocese, Ouvidorias, Zonas Pastorais e Paróquias, adequadas iniciativas de Formação Permanente para sacerdotes, religiosos e leigos, precisamente, a partir da Exortação Apostólica do Papa, para ir aprofundando as implicações práticas desta «nova “saída” missionária» da Igreja, preconizada pelo Santo Padre.

     Os Ouvidores terão que ser devidamente apoiados, para ajudarem as Paróquias a entrarem nesta «nova etapa evangelizadora» (AE 17), a partir de uma consciência mais clara da nossa realidade social, cultural e eclesial.

“Cultura do Encontro”

2. «Saiamos, saiamos, para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo – exorta o Santo Padre! Repito aqui, para toda a Igreja, aquilo que muitas vezes disse aos sacerdotes e aos leigos de Buenos Aires: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada, por ter saída pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro» (AE49), mas uma Igreja que corre «o risco do encontro» (AE88). Conforme indica o Conselho Presbiteral, isso implica, antes de mais, melhor conhecimento da nossa realidade insular e das suas periferias. Há já muito material a esse respeito, disperso aqui e ali. Urge reunir o que existe, recorrer às instâncias adequadas, para chegar a um conhecimento, o mais completo e objetivo, da realidade, em que estamos inseridos: uma realidade cultural rica e diversificada, em profunda mudança; uma realidade problemática, económica e socialmente, que é preciso conhecer cabalmente, para promover a tal «cultura do encontro», que o Papa Francisco recomenda:

«O Evangelho convida-nos sempre a abraçar o risco do encontro com o rosto do outro, com a sua presença física que interpela, com os seus sofrimentos e as suas reivindicações»

 «A Igreja deverá iniciar os seus membros – sacerdotes, religiosos, leigos – nesta “arte do acompanhamento”, para que todos aprendam a descalçar sempre as sandálias diante da terra sagrada do outro (cf Ex 3,5). Devemos dar ao nosso caminho o ritmo salutar da proximidade, com um olhar respeitoso e cheio de compaixão…» (AE 169).

«Precisamos de nos exercitar na arte de escutar, que é mais do que ouvir. Escutar, na comunicação com o outro, é a capacidade do coração, que torna possível a proximidade, sem a qual não existe um verdadeiro encontro espiritual» (AE 171).

     É nesse sentido que o Papa fala de uma Igreja de «portas abertas», para acolher as pessoas e ir ao encontro das pessoas, qualquer que seja a sua situação. Impõe-se um sério exame de consciência para avaliar a nossa capacidade e prática de acolhimento das pessoas nas paróquias.

“Opção pelos últimos»

3. Na entrevista que deu à revista Civiltà Cattolica, o Papa esclarece a sua proposta: «Vejo com clareza que aquilo de que a Igreja mais precisa é a capacidade de curar as feridas e de aquecer        o  coração dos fiéis, a proximidade. Vejo a Igreja como um hospital de campanha, depois de uma batalha. É inútil perguntar a um ferido grave, se tem o colesterol ou o nível de açúcar altos. Primeiro, devem-se curar as suas feridas. Depois podemos nos ocupar do restante. Curar as feridas, curar as feridas… e é preciso começar por baixo» (19 de Agosto de 2013).

     A “saída” missionária para as periferias implica uma clara “opção preferencial pelos pobres”, na linha do Concílio Vaticano II, como nos recomenda insistentemente O Papa Francisco:

«Se a Igreja inteira assume este dinamismo missionário, há-de chegar a todos, sem exceção. Mas a quem deveria preferir? … Não devem subsistir dúvidas, nem explicações que debilitem esta mensagem claríssima. Hoje e sempre “os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho” (Bento XVI, Aparecida, 2007) e a evangelização, dirigida gratuitamente a eles é sinal do                Reino, que Jesus veio trazer. Há que afirmar sem rodeios que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres» (AE 48).

«Nem sempre conseguimos manifestar adequadamente a própria beleza do Evangelho, mas há um sinal que nunca deve faltar: a opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e lança fora» (AE 195). «Sem a opção preferencial pelos pobres, o anúncio do Evangelho (…) corre o risco de não ser compreendido… Peço-vos que procureis comunitariamente novos caminhos para acolher esta renovada proposta» (AE 199-200).

     Na linha das sugestões do Conselho Presbiteral, temos de desencadear um                processo, que  nos  ajude  a identificar  e  caracterizar as «periferias» da sociedade açoriana. Assim, além de outras iniciativas, vamos promover um encontro de Ouvidores, com especialistas na matéria, para encontrar os melhores caminhos de sinalizar e caracterizar as “periferias existenciais”, em cada Ouvidoria.

Ano da Vida Consagrada

4. Ao longo do Ano Pastoral 2014-15, estaremos atentos aos grandes acontecimentos eclesiais. A nível da Igreja Universal, não podemos deixar de acompanhar a preparação e realização das duas Assembleias Gerais do Sínodo dos Bispos sobre a Família. E também o Ano da Vida Consagrada, a assinalar em 2015, por vontade expressa do Santo Padre. Todos somos discípulos missionários: «Em todos os batizados, desde               o primeiro ao último, atua a força santificadora do Espírito que impele a evangelizar» (AE 119). Mas, «o Espírito Santo - recorda o Papa - enriquece toda a Igreja evangelizadora também com diferentes carismas» (AE 130), entre os quais se contam os carismas da Vida Consagrada, que contribuem para edificar e renovar a Igreja. Nesta perspetiva, a Igreja diocesana associa-se de boamente às iniciativas, que vão ser promovidas, para assinalar o Ano da Vida Consagrada (2015), incentivando a Vida Consagrada, nos Açores, a procurar fazer um balanço da sua presença e ação na sociedade, com vista a promover, cada vez mais, a tal «saída missionária”, preconizada pelo Papa Francisco. A Diocese tem recebido muito dos vários carismas da Vida Consagrada e tem dado vocações para vários Institutos Religiosos. O Ano da Vida Consagrada pode ser uma oportunidade para lançar iniciativas de oração e ação em prol das vocações à Vida Consagrada. Os encontros de preparação para o Crisma poderão ser ocasião de contato direto com membros da Vida Consagrada, nomeadamente, as religiosas de clausura do Convento das Clarissas, nas Calhetas (S. Miguel). A comunidade precisa ser rejuvenescida. Conta com 8 irmãs, a maioria com idade avançada: 4 da Madeira e 4 dos Açores. Rezemos por elas e demos a conhecer o único Convento de clausura, existente na Diocese. O Dia Mundial da Juventude é também uma ocasião única para este intercâmbio de fé e encontro entre as várias gerações dos que acreditam e jogam a vida por Cristo e o Seu Evangelho.

Conclusão

Concluindo, recordo as palavras do Papa Francisco aos Bispos de CELAM, aquando da sua viagem a Rio de Janeiro, em Julho de 2013, em que contrapõe missão programática e paradigmática: «A missão paradigmática (…) implica colocar, em chave missionária, a atividade habitual e quotidiana das Igrejas particulares. Isso levará a uma dinâmica de reforma das estruturas eclesiais. A mudança de estruturas (de caducas a novas) não é fruto de um estudo de organização do sistema eclesiástico, de que resultaria uma reorganização estática, mas é consequência da dinâmica de missão. O que derruba as estruturas caducas, o que leva a mudar os corações é, precisamente, o espírito missionário».

     Isto significa que não poderá haver uma conversão pastoral em chave missionária, sem uma autêntica renovação espiritual. Temos de nos deixar guiar e transformar pelo Espírito Santo, que Jesus prometeu enviar e envia, para que possamos ser, realmente, «discípulos missionários», hoje, aqui e agora.

 

Angra, 30 de Junho de 2014

+  António, Bispo de Angra